2007-11-07

Desgarrada 20 (Inferno)

Escuridão. Dor.
Sons. Dor.
Luz. Dor.
Movimentos. Dor.
Picada. Alívio!
Acordou ao som de vozes alegremente incentivantes, embalado por movimentos ritmados e uma agradável sensação de calor.
A primeira coisa a conseguir interpretar foram os cheiros. Sem dúvida estava num hospital. Pensou “estão a reanimar-me, chamam-me à vida, afinal não morri”.
Depois foram os sons a ganhar significado. Aplausos acompanhavam as vozes risonhas:
- Força! Vai, vai, vai!
Abriu os olhos lentamente e a realidade não encaixou nos parâmetros que tinha predefinido. Porque estava aquele par de mamas enormes a bater-lhe nos olhos?
Tentou focar para além delas. Três velhotas com uniforme de enfermeiras riam matreiramente e aplaudiam saborosamente algo que estava a acontecer por cima dele.
Abarcou a situação mas sem conseguir processá-la: estava a ser vigorosamente montado por uma matulona de fartas carnes.
A coisa fez finalmente sentido. Afinal estava no inferno. Sim. Fazia muito mais sentido. Decidiu intervir:
- Olha lá ò filha, chama o cornudo do teu chefe e diz-lhe que prefiro o castigo do fogo.

1 Comments:

Blogger PiresF said...

História Antiga

Era uma vez, lá na Judeia, um rei.
Feio bicho, de resto:
Uma cara de burro sem cabresto
E duas grandes tranças.
A gente olhava, reparava e via
Que naquela figura não havia
Olhos de quem gosta de crianças.

E, na verdade, assim acontecia.
Porque um dia,
O malvado,
Só por ter o poder de quem é rei
Por não ter coração,
Sem mais nem menos,
Mandou matar quantos eram pequenos
Nas cidades e aldeias da nação.

Mas, por acaso ou milagre, aconteceu
Que, num burrinho pela areia fora,
Fugiu
Daquelas mãos de sangue um pequenito
Que o vivo sol da vida acarinhou;
E bastou
Esse palmo de sonho
Para encher este mundo de alegria;
Para crescer, ser Deus;
E meter no inferno o tal das tranças,
Só porque ele não gostava de crianças.

Miguel Torga


Um Excelente Natal para a equipa e respectivas famílias.

7:03 da tarde  

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